Carne: A Nova Vilã do Planeta

Eduardo_CarneEcologia

O hambúrguer pode destruir a humanidade. Se alguém te dissesse algo assim, com certeza você acharia que esta pessoa está maluca, mas o mais triste desta história é que ela está bem próxima do que os especialistas vem falando. Há muito tempo eles concordavam que o consumo de carne tem causado um enorme prejuízo ao planeta, o problema é que eles ainda não haviam calculado qual o tamanho deste prejuízo, e estes dados realmente são alarmantes. Somente a produção de carne tem sido responsável por cerca de 14,5% das emissões de gases estufa do mundo, e esta é apenas a ponta do iceberg.

Criação de gado e as emissões de gases

A Slate Magazine publicou uma matéria analisando os efeitos econômicos e ambientais caso o mundo deixasse de comer carne e os números são consideráveis. A publicação aborda um estudo de 2009 feito pelos pesquisadores da Agência de Avaliação Ambiental da Holanda, onde eles analisam as consequências que haveriam caso a humanidade vier a comer menos carne, nenhuma carne ou até mesmo nenhum produto de origem animal. Os resultados deste suposto veganismo mundial seria a redução em 17% das emissões de carbono, 24% das emissões de metano e 21% de emissões de óxido nitroso até 2050.

O ponto que liga o consumo de carne ao aquecimento global está na produção de gases pela criação de gado. Não só o manejo de dejetos, como a flatulência do gado, por incrível que pareça, provocam uma grande quantidade de gases nocivos ao planeta, isto somado a todo o processo industrial no corte dos animais. Segundo o Inventário Nacional de gases estufa, elaborado pelo governo brasileiro, 76% das emissões de gás metano no Brasil estão diretamente ligadas ao gado de corte. Só para comparar, o cultivo de arroz emite apenas 3% de gás metano do país. Este estudo mostra ainda que somente na criação de gado bovino, as emissões de óxido nitroso são semelhantes que as emissões do mesmo gás pelos automóveis, tidos como os grandes vilões do efeito estufa. Isto ocorre pelo grande número de cabeças de gado que existem, só no Brasil são mais de 212 milhões.

A diminuição do consumo de carne é claramente um dos mecanismos na luta contra o aquecimento global. Seguindo pelo lado contrário, infelizmente a produção de carne cresce a cada ano. A estimativa é que 318 milhões de toneladas de carne foram produzidos em 2015 e “espera-se um aumento do consumo mundial a um ritmo de 1,6% ao ano nos próximos 10 anos” diz o agroeconomista belga Erik Mathijs durante o Congresso Internacional de Ciências e Tecnologia da Carne, realizado no ano passado. Só em 2015, o Brasil produziu pouco mais de 29 milhões de toneladas de carne, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), um aumento de 1,36% em relação ao ano anterior. Este valor é muito alto, mas não é isto que acham os produtores de carne.

Pouca carne no mundo

Um fato que é bastante curioso, e é enfatizado pelos especialistas, é que a produção de carne é relativamente pequena. Com base nos valores da produção mundial, vemos que no ano passado, cada pessoa no planeta consumiu em média 45kg de carne. Isto significa que a oferta por carne é muito menor que a demanda. Em um artigo para o El País, o professor de nutrição Lluís Serra-Najem, da Universidade de Las Palmas, diz que “atualmente 80% do planeta consome pouca carne ou quase nada de leite”.

A preocupação maior dos cientistas é que com o avanço da classe média em países em crescimento, a carne tem se tornando um artigo muito mais acessível. Diante disto, muitas pessoas que comiam carne em poucas quantidades, passam a comê-la com mais frequência. Serra-Najem cita a China como exemplo. Ele observa que se a população da China, que ultrapassa 1 bilhão começar a consumir carne com mais intensidade, os efeitos podem ser devastadores.

A China hoje é um dos maiores produtores mundiais de carne suína e de ovos. A carne bovina representa apenas 8% do consumo dos chineses. Este tipo de carne é consumida, em sua maioria, em restaurantes e fast-foods, por ser considerada uma carne especial. Ultimamente a China tem se esforçado para ter destaque mundial na produção e consumo de carne de vaca, o que tornam todas estas percepções mais realistas. A estimativa é que o consumo de carne bovina na China cresça 24% na próxima década.

Se com os fatores atuais, a produção de carne é um risco ao aquecimento global, imagine com estes níveis de crescimento. É preciso entender que esta perspectiva de crescimento na produção de carne não é exclusivamente chinês, mas é um fator mundial. Sem sombra de dúvidas, quem vai mais sofrer com consumo desenfreado de carne no mundo não serão apenas os animais, mas toda a vida na Terra.

Pastagens engolindo biomas

Um outro fator que é atingido diretamente pela produção de carne é o uso da terra para a pecuária. Estima-se que 26% das terras sem gelo do planeta são usadas para a criação de gado. No Brasil esta porcentagem é em torno de 24%. Este tipo de uso da terra tem deixado suas marcas tristes no país. Em um mapa por satélite divulgado pela Embrapa, estima-se que 60% das áreas do cerrado brasileiro estão danificadas. As estimativas são que mais da metade do cerrado brasileiro seja destinada a produção de carne bovina do país. Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, relata em matéria para O Globo que em torno de 60 milhões de hectares do nosso cerrado se encontram em diferentes graus de degradação. Calcula-se que desde a década de 1990, 90% do desmatamento da Amazônia tenha ocorrido por causa da exploração de terras para a agropecuária. Na Mongólia, 82% do território terrestre é usado para pastagens de gado.

Não só países do terceiro mundo sofrem com a criação de gado, mas também os países chamados ricos. Nos Estados Unidos 50% das áreas usadas para pastagens vivem processo de desertificação. São mais de 100 toneladas de solo arável perdido por hectare a cada ano. Em Queensland, na Austrália, nos últimos 20 anos, 91% das árvores são retiradas para o uso de pastagens de gado.

Um dos maiores problemas deste tipo de prática tem sido para a biodiversidade das áreas desmatadas. É inimaginável a quantidade de espécies são atingidas, ou que simplesmente são extintas para dar lugar ao gado de corte. Estima-se que o não consumo de carne no mundo todo salve 60% da biodiversidade do planeta. Se o mundo deixar de consumir carne, segundo os pesquisadores holandeses, 2,7 bilhões de hectares estariam livres para outras atividades.

Um mundo mais saudável

De todas as consequências de um mundo sem carne, não há outra com efeito mais eficaz que as na saúde humana. Segundo os pesquisadores holandeses, os riscos de infecções resistentes a antibióticos cairiam exponencialmente. Isto se deve principalmente ao uso rotineiro de antibióticos nas criações de animais, com o objetivo de fazê-los ganhar peso e prevenir doenças. Este uso excessivo nos animais afeta diretamente o ser humano ao consumi-los. Os especialistas dizem que a ingestão indireta destes antibióticos contribuem para o surgimento de bactérias e outros microrganismos mais resistentes a remédios.

No ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou um relatório, onde é verificado que o consumo de carne processada é um fator de risco certo para o desenvolvimento de câncer no intestino, e a carne vermelha é um fator de risco “provável” de câncer em geral.

Em um estudo no Jama (Revista da Associação Médica Americana), 500 mil norte americanos foram estudados por 10 anos. Segundo o estudo, 11% dos homens e 16% das mulheres já teriam sua morte adiada se deixassem de ingerir uma quantidade de 9g de carne para cada 1000 calorias. Os efeitos na saúde mundial com uma eventual redução, ou até o fim do consumo de carne no mundo seriam incalculáveis. É certo que milhões de pessoas viveriam mais e melhor. Grande parte das 8 milhões de vítimas de câncer e das 17 milhões de vítimas de doenças cardiovasculares no mundo teriam uma chance de viver mais.

Futuro do planeta

É evidente que o nosso planeta necessita de grandes mudanças para que sobreviva as consequências dos últimos dois séculos de crescente revolução industrial. A humanidade deu grandes avanços na tecnologia, na ciência, no conhecimento, nas artes e nas relações humanas, mas infelizmente o custo de um consumo desenfreado, inclusive da carne, castiga a natureza.

Somente a diminuição do consumo, e consequentemente da produção de carne já é um grande passo na preservação do nosso planeta, como também também da preservação das próximas gerações. Os estudos sugerem que vivendo em um mundo vegetariano, por mais utópico que pareça, ganharíamos mais espaço para cultivar e habitar. Se destacarmos que mais da metade da água potável e da produção de grãos é destinado apenas a pecuária, este mundo teria muito mais água e comida para alimentar as pessoas. Populações inteiras que não tem acesso a comida e água seriam beneficiadas com um consumo bem menor da carne.

Parece claro que mesmo com todos estes indicativos é improvável que o mundo todo deixe de consumir carne. Nós temos que não só se trata de uma questão de princípios ou de saúde pessoal, mas de uma questão ambiental que afeta a todos. Mesmo que pareça coisa de filme apocalíptico, está evidente que o futuro da planeta depende do que você coloca no seu prato.

Assinatura_Eduardo

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