Histórias de quem se tornou vegetariana

Parei de comer carne em 2006, com 19 anos, por causa dos animais. Já fazia um tempo que eu pensava bastante sobre o assunto, eu tinha vontade de parar. Apesar de gostar de consumir esse tipo de alimento, eu não conseguia desvincular a vida animal e os bifes, franguinhos empanados, salsichas. Eu pensava muito sobre isso, era automático. Fui diminuindo o consumo. Até que chegou uma hora que eu simplesmente não consegui mais: havia me tornado ovo-lacto-vegetariana.

Minha mãe e meus irmãos apoiaram e respeitaram minha decisão, apesar de minha mãe ficar muito preocupada em relação à minha nutrição. Meu pai, em um primeiro momento, achou um absurdo. Consigo lembrar da frase que ele falou: “Que diferença vai fazer você parar de comer carne, se o mundo todo vai continuar comendo?”. Passado um tempo, ele se acostumou com a ideia e passou a me ajudar a procurar produtos sem carne.

Convivi com ovo-lacto-vegetarianos desde que era criança, pois na família da minha tia (irmã da minha mãe) todos deixaram de comer carne há muito tempo. Tenho que contar que a família da tia Irene foi uma grande inspiração para mim, principalmente minha prima Tais.

Na faculdade, cursando o Bacharelado em Gestão Ambiental, tive contato com ovo-lacto-vegetarianos e veganos. Não que os vegetarianos fossem maioria, mas havia uma concentração de vegetarianos maior do que nas turmas de outros cursos. Comecei o curso em 2005 e, como já contei, parei de comer carne em 2006. Certamente as vivências do curso influenciaram minha decisão.

Para mim, estudar foi fundamental (e continua sendo) para embasar minha decisão de parar de comer carne, tanto em relação aos nutrientes quanto para conhecer pesquisas socioambientais relacionadas ao consumo de carne. Pode parecer uma bobagem, mas, quando você conhece novas pessoas, ‘ser vegetariano’ acaba virando um tema polêmico. As pessoas vão perguntar os motivos, sobre os nutrientes, se você tem anemia, se a dieta é mais cara, se você não tem dó da alface. Ter respostas e paciência para responder sempre as mesmas perguntas é importante, faz com que as pessoas te entendam e respeitem. Saber e gostar de cozinhar também ajudou bastante.

Na minha casa é bem tranquilo, consigo adaptar o cardápio a mim e me adaptar aos cardápios com facilidade. Quando saímos para comer fora, alternamos os tipos de restaurante. Concessões são necessárias. Descobri que, por mais incrível que pareça, as churrascarias têm muitas opções para vegetarianos. Minha família faz um esforço e, de vez em quando, vamos todos a um restaurante vegetariano. Minha irmã é a mais inclinada ao vegetarianismo. Vai frequentemente a restaurantes vegetarianos comigo e sempre experimenta os quitutes que eu preparo.

De maneira geral, não encontro muitas dificuldades no dia-a-dia. Nos restaurantes por quilo, onde almoço de segunda a sexta-feira, é fácil encontrar opções sem carne, como grãos variados, arroz integral, massas recheadas com queijo, além das saladas. É legal ver que o pessoal do trabalho sempre se preocupa em irmos almoçar em restaurantes com opções para mim.

Isso falando de comida de verdade. Quando se fala em guloseimas, é mais fácil ainda. Lanches, salgados, tapiocas, pastéis, pizzas sempre têm opções de recheios sem carne, desde queijos, palmito, champignon (que as pessoas não estranham) chegando até os mais radicais, como ricota, berinjela, abobrinha, soja, tofu.

Pedir um salgado em balcão de lanchonete pode ser uma tarefa difícil. Se você pergunta os recheios de tudo, o balconista perde a paciência. Se você vai logo dizendo que não come carne, eles te oferecem frango, calabresa, presunto, atum. Eu tenho paciência. Vou perguntando até chegar a um acordo.

Acredito que hoje há muitas informações sobre o tema. O número de vegetarianos vem aumentando. Percebo que as pessoas param de comer carne por diversos motivos: éticos, religiosos, por acreditarem que é melhor para a saúde ou pelos impactos ambientais. Em geral, não é difícil para quem come carne entender os motivos que levam a parar. Algumas dizem que gostariam de parar, mas não conseguem.

Fico um pouco irritada quando alguém me fala (acontece frequentemente) que não come carne quando o animal vai inteiro para a mesa (um leitão, por exemplo) ou quando viu vivo um animal que depois foi abatido e levado à mesa (em fazendas, por exemplo) ou quando se trata de uma carne exótica (ah, coelho eu não como, coitado, por exemplo). Qual a diferença? Só porque um bife não tem olhos já fica fácil de esquecer de onde ele veio? Para mim não faz sentido. O mesmo sentimento despertado pelo animal inteiro à mesa deveria surgir diante do filé, não é mesmo?

É como eu li uma vez: o consumo de carne seria bem menor se cada um tivesse que matar os animais.

Por Marina Cornieri

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